A busca da diversidade nas mídias é uma busca universal

por Milton Tanaka

Faz trinta e alguns anos que saí do Brasil para estudar a dança Butoh no Japão, em Yokohama, a convite do grande mestre Butoh já falecido, o incrível Kazuo Ohno. O convite do Kazuo Ohno veio durante o meu trabalho com o Ponkã que na época era constituído pelo Paulo Yutaka (que tomou a iniciativa de fundar o Ponkã por meio do manifesto Ubiratan Tokugawa) o Luiz Galizia, o Celso Saiki e o Carlos Barreto. Voltarei a falar do Ponkã em uma próxima contribuição para esse blog.

Trinta anos mais tarde, em janeiro-fevereiro 2017, estive no Brasil, especificamente em São Paulo, para dar oficinas de dança Butoh a convite da SP-Escola de Teatro. O que me surpreendeu muito na SP-Escola de Teatro foi a diversidade das pessoas que participaram das minhas oficinas: brancos, mulatos, negros, orientais, algumas pessoas de ascendência mista japonesa-brasileira. Eu imaginava que a diversidade tivesse avançado muito no Brasil quando um participante da oficina me contou sobre o incidente da novela da Globo em 2016…… “Sol Nascente” que empregou atores brancos em lugar de verdadeiros atores asiáticos… Voltou-me então uma expressão que não tinha utilizado há muito tempo: P..ta que o pa..iu! Verdade? Esses 30 e mais anos não foram então suficientes para avançar a diversidade nas mídias no Brasil?

Comecei a me lembrar lentamente da realidade das mídias no Japão onde morei e aqui no Canadá… onde moro. No Japão, há muitas publicidades que empregam os gaijin tarento, ou seja, “wanna be actors”*, geralmente americanos e americanas loiros e loiras com olhos azuis, residentes no Japão, que recebem um cache significativo para dizer uma frase ou uma onomatopeia estúpida em inglês na TV.

Também me lembrei dos ultra-famosos-atores-atrizes-de-Hollywood, pagos milhões de yens para viajar em jato privado, todas as despesas cobertas, além do cache multimilionário para dizer, por exemplo em um comercial de 10 segundos na TV, com um sotaque americano horrível: “Insutanto ramen dai-suki! ” (Eu adoro lamen instantâneo!)

Lógico que os atores e atrizes japonesas, mesmo famosos, recebem bem menos para anunciar a mesma classe de produtos na TV japonesa. É a dita enfatuação dos japoneses com as estrelas brancas de Hollywood. Houve, portanto, um pouco de progresso no Japão….o Jackie Chan chegou a fazer algumas publicidades para TV na terra do “sol nascente”.

Aqui no Canadá….. a situação não é tão diferente. Alguns anos atrás, quando o Obama ainda estava no poder, um casal de atores brancos famosos aqui no estado de Québec, cidade de Montréal, fez uma comédia de fim de ano na televisão com um ator branco, a cara pintada de “Blackface”… E estamos falando do Canadá, um país supostamente parte do primeiro mundo. Ainda hoje, antes de escrever essas poucas linhas, recebi um pedido para fazer uma locução para um comercial em língua francesa (aqui no Québec se fala francês) com “sotaque japonês”… mesmo se o meu francês não tem nenhum sotaque de brasileiro ou de japonês.

Fiz um longa-metragem no ano passado em francês onde o diretor insistia em identificar um sotaque para o meu personagem, dizendo “tem que ser um sotaque de japonês falando o francês Suíço, sem ser o sotaque francês do Québec”. Bom, eu já sou etnicamente japonês, estava fazendo um personagem “japonês” como exigia o script e ainda por cima tinha que lidar com um sotaque japonês falando o francês da Suíça? E desta vez esse diretor nem estava chapado, nem sob influência de outras substancias.

Tudo isso para dizer que a busca da diversidade nas mídias é uma busca universal….
Deixo essas linhas em suspenso por aqui e continuarei contribuindo regularmente para o blog.
Abraços do Canadá!

* “wanna be actors”. Wanna be = want to be = quer ser algo mas não é. Alguém que quer ser ator, mas não é qualificado.

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Um comentário em “A busca da diversidade nas mídias é uma busca universal”

  1. Não é novidade que a mídia, não só no Brasil mas no mundo todo, busca apenas a audiência a todo custo, mesmo que para isso tenha que distorcer as características de qualquer cultura, retratando de forma rasa e estereotipada.

    Infelizmente vemos essa prática também sendo repetida pelos youtubers em busca de inscrições em seus canais, e isso nada contribui para ampliar o conceito de diversidade tão necessária para a construção de uma sociedade mais integrada, onde pessoas ou grupos étnicos, sociais e de gênero, sejam respeitados da forma como eles realmente são.

    Fica cada vez mais claro a importância do trabalho que o Coletivo Oriente-Se, o canal Yo Ban Boo e outros coletivos com objetivos semelhantes vem realizando. Gerar conteúdos que possam provocar reflexões sobre os conceitos pré-estabelecidos pela grande mídia que busca prioritariamente apenas a audiência.

    Curtido por 2 pessoas

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