Apropriação Cultural e inclusão

Há pouco tempo, houve uma discussão a respeito do tema apropriação cultural, que começou com o uso de um turbante por uma mulher branca. Justificando o uso do adereço por estar com câncer, foi considerado por parte da população afrodescendente como apropriação cultural, gerando inúmeros debates, com parte da população defendendo o uso e parte contestando o fato.

O post feito no facebook da usuária viralizou, virou discussão, hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim, além de matérias… e não foi à toa.

Num primeiro momento, pensei: E a liberdade individual? Claro, termina quando se sobrepuja a liberdade do outro, mas que neste caso, à primeira vista, a mulher branca não imaginou que causaria esse desconforto e, segundo sua justificativa, é perfeitamente possível entender o uso do acessório neste caso. Só que não!

Acompanhando as matérias sobre a apropriação cultural, compreendemos, de fato, as razões profundas que geraram indignação sobre o uso do turbante pela população afrodescendente no Brasil.

Lendo o artigo de The Intercept Brasil “Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo”, escrito por Ana Maria Gonçalves, é possível ver escancarados todos os motivos da indignação que abrange o tema “apropriação cultural”. Reproduzo um trecho da matéria acima citada:

Debaixo deste turbante orientamos nossos jovens negros a não usarem roupa com capuz, não correrem, não fazerem movimentos bruscos em público e não parecerem suspeitos, seja lá o que isso significa para vocês.

Imagine você ter que dizer isso ao seu filho! É tão terrível quanto ter uma arma constantemente apontada para si.

O Brasil é um país racista, mesmo que veladamente, o preconceito perpassa ainda a sociedade brasileira.

A questão não se resume ao uso ou não do turbante. Todos podem usar o que quiserem. O brasileiro é feito de muitas misturas culturais. A grande questão aqui é o protagonismo branco.

O que antes pertencia a eles, quando elementos culturais dos afrodescendentes eram vistos como marginais, a partir do momento em que passa a ser moda, oculta-se a origem e há uma apropriação dos brancos pelo seu uso, sem os significados que veem carregados com o elemento cultural.

Quando uma comunidade se incomoda, temos que ouvir, discutir e refletir a respeito.

Diante de todas as atrocidades cometidas contra a Humanidade, a escravidão dos africanos e seus efeitos, é o que encabeça a lista dos horrores, porque tirou-lhes a História, a dignidade, a cultura, a vida e prejudicou de forma bárbara todas as gerações de seus descendentes. Vide todas as matérias, depoimentos e o modo como ainda hoje grande parte da população afrodescendente vive sob vários tipos de segregação.

Deveria gerar muita vergonha aos descendentes de escravocratas e correlatos, que enriqueceram às custas de infinitas vidas, ceifando qualquer tipo de benefício ou possibilidade dos que sofreram com tal carga de tragédia e tudo isso motivados pelo pensamento de supremacia étnica, ou seja, dos brancos.

A Humanidade está em débito com a população afrodescendente no mundo.

Somos a favor de pontes sempre. Vivemos tempos de transições, é preciso educar, refletir sobre o significado destes acontecimentos. As influências globais são inevitáveis e o uso de símbolos étnicos fará parte da miscigenação cultural. Antes, porém, será necessário que as oportunidades e a história sejam retraçadas de forma a contemplar igualmente todas as etnias.

Somos todos da raça humana!

Por Cristina Sano – atriz e roteirista

Colaboração: Ligia Yamaguti, Marcos Miura

Crédito: The Intercept

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2 comentários em “Apropriação Cultural e inclusão”

  1. Acredito que seja necessário conversar sobre qualquer fato ou ato que suscitem desconforto às origens ou a cultura de cada etnia que compõe a nossa sociedade.
    Afinal só o dialogo pode levar ao entendimento e conseqüentemente ao respeito das diversas manifestações culturais que definem a identidade brasileira que ainda está em processo de formação. O Brasil ainda é um país jovem em relação aos outros.

    Curtido por 1 pessoa

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